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As informações que as empresas construtoras, disponibilizam de maneira geral, mediante os processamentos clássicos da engenharia civil, igualmente empregados na forma de apoio aos procedimentos de auditoria, são suficientemente organizados e competentes frente ao mercado para transparecerem a real situação de um empreendimento numa determinada data ou estarão mais adequados a refletirem de forma particular a posição econômica e contábil da empresa que realiza tal empreendimento?

Por outro lado, quais as ferramentas que a engenharia pode dispor para estas empresas de auditoria e consultoria na realização de seus serviços, objetivando as particulares posições de cada empreendimento dentro de uma empresa construtora ou incorporadora? Ainda, esta visão pode servir de auxílio aos complexos trabalhos de auditoria empresarial?

Não deixa de ser uma forma diferente de acompanhar o andamento de um empreendimento, onde enquanto a auditoria tradicional preocupa-se com grande ênfase aos aspectos contábeis da questão, o apoio da engenharia pode ofertar uma nova visão na interpretação dos fatos em ocorrência.

Por exemplo: enquanto o trabalho contábil preocupa-se com a interpretação de lançamentos, planos de contas, balanços e afins, ele consegue firmar a posição relativa a posições já assumidas. Este novo plano de trabalho, com o respaldo da engenharia, pode apresentar a visão futura do encaminhamento do empreendimento, em vista de inúmeros fatores envolvidos, dentre eles, do partido gerencial adotado, das técnicas executivas em procedimento, realizando projeções de viabilidade ou até apontando novos caminhos a aquilo que está sendo feito.

Não se trata de anular o importante trabalho econômico que arduamente vem sendo implantado e desenvolvido pelos analistas contábeis, mas acima de tudo interelacionar seu trabalho numa equipe multidisciplinar.

É de extremo interesse para um investidor conhecer seu empreendimento de forma holística, possuindo um ferramental que lhe traga a posição presente daquilo que vem sendo feito pelos analistas contábeis, mas também com a visão crítica e reservada do plano de obras de seu empreendimento, facilitando a antevisão dos resultados a serem alcançados portanto dentro de uma óptica entrelaçada pela engenharia e contabilidade.

Podemos falar da necessidade desta nova atividade de apoio aos empreendedores devido às particularidades do importante segmento econômico da construção civil e do qual muito pouco se sabe. Deve ela deve ser tratada como uma atividade industrial ou de prestação de serviços?

O simples enfoque sob o ponto de vista de uma empreiteira é suficiente para lograr êxito sob todos os aspectos que envolvem um empreendimento imobiliário? Os tradicionais métodos administrativos são suficientes na condução deste tipo de empreendimento?

Um dos nossos objetivos é apresentar uma nova interpretação para o panorama descrito, com a utilização de técnicas diferenciadas de engenharia que servirão de alicerce a esta nova atividade.

Afinal, engenharia não é apenas a realização de edifícios ou obras de arte dentro do enfoque operacional, e que apesar dos avanços ainda tem uma grande cultura de canteiro de obras, ela deve inovar e desta forma auxiliar a todos aqueles que estão envolvidos neste complexo contexto, o de construir com grande qualidade.

Assim pretendemos dentro desta nova luz, implantar este conceito, explanando de forma detalhada através dos capítulos seguintes o panorama até aqui comentado.

AS PARTICULARIDADES DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL.

Aqui começa um ponto nevrálgico para que se inicia em qualquer empreendimento imobiliário. Quando um empreendedor decide pela condução de  uma unidade industrial, ele terá a sua frente um rol de tomadas de decisões envolvendo um panorama de certa forma estático. Afinal o prédio da sua industria está implantado, sua linha de produção configurada, assim como os espaços para estoques de insumos e produtos, o mesmo acontecendo com o dimensionamento de sua produção que será de tantas peças ou toneladas por mês.

Desta forma, essa indústria passa por um processo de planejamento detalhado, é implantada, seus equipamentos instalados, selecionada e alocada a mão de obra, fornecedores, vendedores e tudo o mais.

O desenvolvimento das etapas se dá de forma linear, onde tudo permanece em seu lugar, apenas se aperfeiçoa o existente, porque aquilo que existe estará sempre completo para poder funcionar.

É iniciado um processo de certa forma estanque, não obstante a significativas alterações já efetuadas, como o processo de terceirização, por exemplo, mas tudo está sujeito a um processo de controle muito rígido. Ocorre uma estrutura voltada a esse controle sempre aos olhos da direção da empresa e as diferenças, salvo acidentes de percurso sempre serão pontuais nunca envolventes, atingindo uma reformulação geral da configuração instalada.

E na construção civil? Lá tudo é diferente! Um edifício ou uma obra de arte inicia-se pelo terreno, onde nem o subsolo é muito conhecido, a vizinhança então muito menos, e que invariavelmente fará célere oposição aos serviços que serão realizados.

De início o terreno necessita de terraplenagem, acertos, mas para isso tudo se faz necessária a mão de obra. Então será preciso de uma administração e que não pode ser a distancia, tem de ser local, com a instalação de tapumes, portões, guaritas, almoxarifados, sanitários e até alojamentos, ocupando assim significativo espaço dentro deste terreno.

A seguir vem o espaço para manobra de máquinas e caminhões, insumos, tais como areia, pedra, aço, irão ocorrer operações de escavação que não raro atingirão o terreno todo, podendo até afetar a vizinhança.

Vem aqui as primeiras diferenças em relação a outras indústrias, a mão de obra primária da construção civil é imigrante, e assim necessita residir no próprio canteiro de obras até o fim dele. Com isso vem toda a problemática social envolvida, onde diferentes culturas procedentes de diversas regiões do nosso país passam a conviver num espaço restrito, exigindo não raro o aculturamento desse específico contingente humano.

As obras continuam e com isso vem as fundações, a estrutura, chegando ao canteiro por um determinado número de meses materiais brutos como pedra, areia, aço, concreto, madeira além de um grande volume de andaimes, mas também pregos, arames, pequenas ferramentas, enfim tudo tem de estar devidamente acomodado e sempre à mão.

O edifício vai se verticalizando por meio das novas lajes que vão sendo feitas e assim outras etapas ditadas pelo cronograma tem de seguirem, exigindo maior contingente de mão de obra e por decorrência mais espaço para alojamentos, sanitários, refeitórios, vestiários, almoxarifados e outros.

Novos materiais chegam, agora em vez de pedra e aço, chegam placas polidas de mármore, caixilhos de alumínio, vidros e demais acabamentos, com outro contingente de mão de obra, já mais especializada, de caráter pontual, atuando por determinado número de dias.

A finalidade é o edifício e é para isso que se destina o terreno, não para o canteiro de obras, o edifício toma figura e o canteiro se muda para dentro dele.

Chega a etapa de acabamentos específicos, com a execução de forros removíveis, pinturas, polimentos, instalação de louças e metais, exigindo que agora o canteiro saia do edifício, com isso se reduz o contingente de mão de obra de menor especialização, entrando outra em seu lugar com maior especialidade, como serralheiros, marceneiros, pintores, etc., exigindo cada um deles um espaço próprio para a guarda de seus materiais de aplicação e ferramental.

Entretanto a fase de acabamentos é extremamente detalhada, necessitando de pequenos, delicados e essenciais insumos e invariavelmente acaba ocorrendo a degradação de um trabalho anterior em decorrência da realização de outro em fase posterior, figurando a danosa presença do retrabalho, outro fator a dar imensas preocupações aos engenheiros de obras.

Tudo isso exige dentro do painel apresentado um complexo gerenciamento logístico por parte da construtora e nem sempre possível de ser realizado dada as particularidades de cada planta arquitetônica em realização.

Todos esses fatos e as evidentes modificações econômicas que nos são impostas, levam-nos a questionar o papel da construção civil neste palco, onde teria ela a função de indústria que transforma determinadas matérias primas em produtos dentro de uma rígida linha de produção e conseqüente controle de qualidade ou a de prestadora de serviços ofertando organização e gerenciamento para determinada tipologia de produto, mutante a cada instante?

Enquanto a industria de transformação lida num procedimento estanque, delimitado fisicamente, estabelecendo grande controle sobre seu produto, podendo planejar de maneira a antecipar eventuais problemas e ainda aperfeiçoar a sua linha de montagem, a construção além de transformar determinados insumos a partir de seu estado praticamente bruto, ao exemplo da pedra britada que forma o concreto estrutural, ela lida constante e permanentemente com um procedimento de caráter processual levando-a a lançar mão de todas as técnicas disponíveis na área da organização empresarial, logística e gerenciamento sob pena de sucumbir ao mercado.

A construção desta forma deve agir como pólo ativo de inteligência superior neste processo, atuando dentro de padrões de excelência empresarial, aglutinando diversas frentes de trabalho nem sempre inerentes ao seu quadro funcional, tudo para que a sua obra, ou seja, a sua transformação ocorra de forma harmônica e contínua.

Este é na verdade o grande papel da construtora, agir como o elemento inteligente dentro de todo este complexo processo que parte de um terreno e atinge a um edifício.

Porém a realidade é outra, não é isso o que ocorre no mercado, onde estas empresas por estarem enraizadas e cristalizadas em seus processos próprios ainda não tiveram o necessário tempo para realizar a releitura de sua atuação, até frente às atuais exigências do mercado.

Uma construtora atualmente pela própria complexidade imposta por este mercado, já não possui quadros próprios operacionais, ela contrata a equipe de consultores e projetistas, atua com uma mão de obra de operação constituída por subempreiteiros e prestadores de serviços especializados.  Isto leva a acontecer que todo o quadro técnico especializado tem a plena liberdade de prestar serviços a quem quer que for, inclusive os concorrentes!  Transferem-se de maneira informal tecnologias próprias, procedimentos característicos, mesmo que todos ainda incipientes, praticamente tornando de conhecimento público a pesquisa, os índices de custo, metodologia e controle implantados por uma construtora desenvolvidos por seus próprios meios e métodos, pois estes são na verdade propriedade  de seus fornecedores.

O fato de uma construtora lidar com um produto físico, a partir de determinadas matérias primas para dar figura a um prédio, a leva caracterizar-se como a indústria, já discutido nos parágrafos acima, mas o seu envolvimento com um grande número de agentes externos a leva para uma condição de indústria particular onde ela não mais tem pleno domínio naquilo que fabrica.

Ocorre nisso um grande problema, a construtora passa a atuar verdadeiramente como mera intermediária entre seus clientes e fornecedores e/ou prestadores de serviços.  Isto ocorre num mercado onde seus personagens dominantes são os clientes, que por sua vez não conhecem o quadro acima, porque na verdade eles também não sabem do que precisam, apenas anseiam por resultados, entendo-se por isso o preço e o prazo, acabando por conduzir a construtora, que opera no regime de livre concorrência, para uma posição de extrema fragilidade, podendo ela facilmente inviabilizar-se, não conseguindo formar um quadro de clientes cativos, tudo em função desta falta de domínio sobre seus próprios processos agora transferidos em grande parte a seus terceirizados.

Atualmente resta muito pouco para a construtora sob o ponto de vista de domínio do processo construtivo, ou seja, na fabricação de seu produto, em vista dos intensos processos de terceirização desenvolvidos pelo mercado.

Esta empresa passa assim a vender algo que ainda não é o seu produto final, é apenas um insumo que é ligado ao que ela fabrica, ou um equipamento, processo produtivo, podendo até mesmo ser qualquer outro produto final.

Não é algo de consumo imediato, de massa, tal como um carro que dá satisfação a quem o adquire porque é beneficiado de todo um aparato de recursos e técnicas de marketing.

O cliente não compreende esse produto ofertado, ainda que  de maneira indireta pela construtora. O seu potencial cliente não sabe comprar serviços de engenharia e arquitetura, afinal este produto não concede nenhum prazer ou satisfação no ato da sua aquisição.

A releitura da atuação da construtora frente ao que ela mesma implantou e ainda não sabe, deve ser de se conscientizar que a ela cabe ser uma prestadora de serviços especializados de engenharia.

Deve isto sim, implementar a faculdade de oferecer a seus clientes um produto diferenciado integrando todos os conhecimentos altamente especializados, mas dispersos entre seus diversos colaboradores. Esta atitude exige da construtora elevado conhecimento acerca de conhecimentos gerenciais e de informação para que ela se se configura no elemento de coordenação inteligente e não empírico, de toda a rede de fornecedores e prestadores de serviços, antecipando-se a todos os problemas que normalmente ocorrem dentro de um canteiro de obras, seria a gestora que ampara todos os conhecimentos gerais ao processo, especialmente de engenharia e arquitetura, passando a conduzi-lo com plena maestria, onde seu grau de interferência seria máximo no modo de execução e mínimo na construção.

Ela atuaria na divulgação de sua cultura e objetivos frente a seus produtos junto a sua equipe de projetos, mantendo clara diretriz de suas metas, facilitando o comportamento de execução, estando assim evitando o surgimento de vícios construtivos tão normais nos processos atuais.

Todo esta maneira inovadora de atuar exige de antemão a adoção de um comportamento peculiar, onde seus fornecedores e prestadores de serviços seriam vistos como efetivos e atuantes parceiros, atuando entrosadamente em vista da sistematização de procedimentos implantados.

Esta visão está alicerçada em conhecimentos pluriprofissionais advindos de outras áreas, principalmente da psicologia, recursos humanos, deixando de enxergar unicamente o produto final, entretanto vislumbrando o ser humano que em suma é quem tem a capacidade particular de realizar tudo aquilo que deseja, propondo que este seja o parceiro efetivo da melhoria dos negócios.

Existem grandes lacunas a serem preenchidas, como melhores condições de salubridade e segurança dos trabalhadores, também fazendo com que as edificações sejam mais duradouras, confortáveis e menos onerosas aos seus compradores, cujas sugestões e soluções viriam desta atuação da construtora como organismo inteligente que privilegia o elemento humano sempre.

Fica oportuno, portanto evidenciar que um enorme campo de trabalho inovador se abre, em contraposição ao conservadorismo ainda vigente nesta atividade, a auditoria de empreendimentos, a exemplo do que já ocorre de forma tão cabal em outros segmentos do mercado.

A maneira pelo qual isso se dá é a auditoria de empreendimentos  atuar na ponta final do processo de forma a ser o agente corretivo do procedimento construtivo que tal como já vimos é de constante evolução, possibilitando ao cliente, às equipes projetistas, fornecedores e construtores seus reais pontos críticos, o que deve ser mudado, e acima de tudo sempre dentro do procedimento ético adotado pelas empresas auditoras, garantindo-se a confidencialidade  de determinadas informações.